segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O professor mais popular do mundo. 23,2 
milhões de visitas às aulas da Khan Academy no YouTube, será o fim do ensino presencial?




Para um estudante exemplar, detentor de dois diplomas do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e um de Harvard, Salman Khan tem uma visão surpreendentemente pessimista sobre o ensino nas escolas tradicionais: “As aulas são uma chatice. Metade dos alunos dorme. Eu dormi. Você pode confirmar. Está tudo na internet. Tente assistir a duas ou três delas até o fim. Se aguentar, eu pago-lhe um jantar.”

Salman Khan, que também é professor, não pode garantir que ninguém adormece durante as suas aulas. Afinal ele não conhece nenhum dos seus alunos, não trabalha numa escola, não suja as mãos de giz, nem corrige os exames. Khan é um professor do YouTube. Ou melhor: ele é o professor superstar da rede social YouTube. As suas 17 mil aulas em vídeo já foram vistas mais de 23 milhões de vezes, em quatro anos. O seu canal, Khan Academy, tem mais au-
diência do que a soma de todos os vídeos dos professores do MIT. Os seus alunos estão espalhados pelo mundo e até incluem Bill Gates, o fundador da Microsoft, que acompanha as aulas com os seus filhos.

Khan é o professor mais popular do mundo por mero acaso. Depois de se formar em Harvard, ele diz que “se vendeu”. Foi trabalhar como gestor de um hedge fund (fundo alto risco). Saiu de lá “com menos de 1 milhão de dólares” e tentou abrir um fundo próprio. Depois veio a crise financeira de 2008, e a sua ideia nem sequer chegou a sair do papel. Na altura, Khan ajudava uma prima de 12 anos que tinha dificuldade em Matemática. Ela estava em Nova Orleães, ele em Boston. Chegou a criar um software de exercícios, mas depois descobriu que a melhor solução seria gravar vídeos e colocá-los no YouTube, pois poderia ensinar apenas uma vez e ser visto várias vezes. No início, os alunos eram amigos ou parentes. Um mês depois, chegaram os primeiros e-mails de agradecimento de estranhos. Até que os vídeos começaram a ser vistos milhares de vezes. “O meu emprego estava chato, e eu interessava-me cada vez mais pela gravação das aulas”, diz Khan. Em 2009, abandonou o emprego para se dedicar integralmente ao projecto que apelidou de Khan Academy.


SALA GLOBAL
Sal Khan é um campeão de audiência

23,2 
milhões de visitas às aulas da Khan Academy no YouTube

300000 pessoas assistem, por mês, aos vídeos de Khan


O nome é um pouco pretensioso, mas a Khan Academy não poderia ser mais despojada. O site é basicamente uma coleção de links para os vídeos no YouTube. O forte ainda é a Matemática, mas já há aulas de Biologia, Química, Física e Finanças.

Aulas são gravadas em casa

Os vídeos são rudimentares. Khan grava-os numa das divisões da casa onde mora com a mulher e o filho pequeno, na região de São Francisco. Ele nunca aparece nos vídeos. Ouve-se apenas a sua voz, e, no quadro preto, vão surgindo os traços que ele desenha numa prancha ligada ao computador. Apesar dos poucos recursos tecnológicos, o entusiasmo da narração, seja ela sobre a crise de crédito ou sobre um conceito de trigonometria, é percebido imediatamente.

Khan é um professor apaixonado. As suas aulas são curtas: têm entre 10 e 15 minutos, e os temas são sempre específicos. “O YouTube pode ser uma excelente ferramenta de aprendizagem”, diz Lisa Nielsen, autora de um blogue sobre inovações na educação e consultora para a digitalização das escolas de Nova Iorque. “Os estudantes podem procurar o que quiserem, quando quiserem. Para mais são os alunos que procuram as aulas. Esse interesse é essencial para uma boa aprendizagem”, diz a especialista.

As aulas estão todas no YouTube, mas não apenas lá. Por intermédio de uma parceria com a ONG World Possible, que oferece servidores para o ensino à distância em países pobres, as aulas da Khan Academy já estão disponíveis gratuitamente na Etiópia, Serra Leoa, Uganda, Nepal, Índia e Equador. “As aulas também são vistas nas áreas rurais dos Estados Unidos, onde a ligação à internet nas escolas é péssima”, diz Norberto Mujica, um dos fundadores da World Possible. “Todo o conteúdo da academia é, e sempre será, gratuito”, diz Khan. Ele ficou sem salário durante quase um ano e sempre resistiu à venda de publicidade. Mas a iniciativa logo chamou a atenção de mecenas dispostos a contribuir para manter a ideia viva.


A Khan Academy recebeu do Google 
2 milhões de dólares para a tradução das aulas, inclusivamente para o português.

A Khan Academy recebeu 350 mil dólares em doações. No final de Setembro, foi uma das cinco vencedoras de um concurso realizado pelo Google que teve mais de 150 mil inscrições de 170 países. “O prémio de 2 milhões de dólares será usado para traduzir as aulas para outras línguas, entre as quais o português”, diz Khan. Outra ideia é criar uma estrutura para melhorar o site e levar a iniciativa a mais países. “A minha intenção é que uma pessoa que tenha estudado na academia possa ter o seu conhecimento validado como o de qualquer outra instituição de ensino”, esclarece.

Até lá o “professor” terá de fazer crescer a Khan Academy sem estragar o carácter informal de suas aulas. Preciso de contratar pessoas para criar uma estrutura administrativa para o site. Sal Khan diz que não pretende envolver-se na gestão. A ideia é continuar com as gravações no seu mini-
-estúdio. Khan é uma pessoa eléctrica cujas palavras tentam acompanhar a velocidade rápida do seu pensamento. No dia em que conversou com a EXAME, publicou mais duas aulas de Química, vistas quase 5 mil vezes em três dias. No dia seguinte, mais duas. Sobre a contratação de outros professores, ele é reticente. “Teria de encontrar outras pessoas que tivessem o mesmo estilo de ensinar.” Ao que tudo indica o professor continuará a centralizar a tarefa. Capacidade de trabalho não lhe falta.





Salman Khan, criador da Khan Academy


IDADE: 33 anos


FAMÍLIA: Casado, um filho


FORMAÇÃO: Foi o melhor aluno da sua escola no ensino médio. É formado em Matemática, com mestrado em Engenharia Eléctrica e Ciência da Computação pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT). Tem um MBA em Gestão por Harvard.


EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL: Trabalhou num hedge fund 
e deixou o emprego com 
1 milhão de dólares no bolso. Tentou abrir um fundo próprio, que não foi avante. Fundou então a Khan Academy, uma instituição de educação
sem fins lucrativos.




ESCOLA EM BANGLADESH: a Khan Academy quer levar a educação gratuita, através do ensino à distância, para os países pobres






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